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A universidade necessária

Gilberto Giusepone (*)

 

O filósofo Marquês de Condorcet (1743-1794) – um dos pais do ensino laico, público, gratuito e universal na França – dizia que, para que a desigualdade que nasce da “diferença entre os espíritos” não se tornasse, na prática, um motivo de distribuição desigual de direitos, a educação deveria ser universal, oferecendo a possibilidade de desenvolvimento dos talentos individuais. Trazendo esse raciocínio para a atualidade brasileira, poderíamos afirmar, sem sombra de dúvida, que a ampla democratização do acesso à universidade, como ocorreu nas últimas décadas, tornou-se uma ferramenta essencial para a distribuição de renda.

Há poucos dias, o Banco Central publicou um estudo mostrando que o aumento da escolaridade da população brasileira fez crescer a parcela de trabalhadores com mais anos de estudo do mercado de trabalho, elevando em 12% a renda média dos ocupados entre 2012 e 2018. O estudo foi feito com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O trabalho mostra que, entre 1992 e 2018, aumentou de 5,8 para 9,9 a média de anos de estudo da população ocupada no Brasil. Uma das consequências desse processo foi o crescimento da parcela de trabalhadores que passou pelo Ensino Médio e pelo Ensino Superior, paralela à diminuição do número de trabalhadores apenas com Ensino Fundamental. Entre 2012 e 2019, subiu de 15% para 20,1% o percentual de trabalhadores na população ocupada com superior completo, enquanto que o grupo com Ensino Médio passou de 35,6% para 39,3% e aquele com fundamental completo caiu de 17,2% para 14,7%.

O Banco Central fez então um exercício simulando qual seria a renda desses trabalhadores se nada tivesse mudado, ou seja, se a estrutura de escolaridade de 2018 fosse a mesma de 2012. A conclusão foi que a diferença entre o rendimento observado e aquele resultante do exercício foi de 12%, o que, segundo o BC, “corrobora a relação entre ganhos de rendimento e maiores níveis de instrução”.

No documento, o Banco Central conclui ainda que, em média, o nível fundamental adiciona 39% ao rendimento por hora do trabalhador; o médio acrescenta 66% e o superior agrega 243% em relação a um trabalhador sem instrução. “Tais resultados corroboram o impacto positivo do avanço da escolaridade nos salários observados nos últimos anos”, conclui o BC.

Em abril do ano passado, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc) mostrou que o rendimento médio dos profissionais que concluíram algum curso superior era de R$ 5.110, 00, contra R$ 1.727,00 daqueles que concluíram o nível médio. Comparados com os trabalhadores sem qualquer nível de instrução – cuja renda média foi de apenas R$ 842,00 – quem tem nível superior ganhou seis vezes mais.

O IBGE mostra que o acréscimo de salário depende da conclusão do curso. Os profissionais com nível superior incompleto ganharam em média R$ 2.186,00 por mês no ano passado, 43% do salário de um diplomado. Mesmo assim, esses trabalhadores receberam 27% mais que aqueles que pararam na conclusão do ensino médio. O rendimento médio de quem concluiu apenas o ensino fundamental foi de R$ 1.409,00 em 2017.

Esses números demonstram que a ideia de que a democratização do ensino, especialmente da universidade, é o único caminho para superarmos o hiato que nos separa dos países desenvolvidos, como já defendia o educador Anísio Teixeira. E, assim, impedindo que o passado se imprima nas entranhas do futuro, criaremos condições para que o Brasil finalmente se torne viável, como queria o saudoso Darcy Ribeiro.

(*) Presidente da Fundação PoliSaber.

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