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Involução da espécie

                                                                                                           Elder Heronildes (*)

“Deus, faça-me de novo”, elevava a voz numa espécie de tresloucada exortação, ou aclamação, extertorizada.

Não me deixai embeber-se de mim mesmo, pois a vida já não me pertence e não sei onde está seu começo e seu fim. Já não faz sentido.

Eu não sou mais aquele que era mais aquele que era, e não fui.  O que fiz, não fiz por mim, nem de mim saiu. Os meus pecados não são, e nem podem ser, aqueles que criei, que dei vida, que saíram de mim, mas sem ter de mim, o menor sentimento ou emoção. Ou peso.

Saíram como fruto das minhas elucubrações mentais, em longas e prolongadas vigílias, por mim buriladas em escritos contaminados, não por mim, mas por eles mesmos, com uma indocilidade nunca vista por ninguém em qualquer tempo.

Eles têm vida própria. Não vivem em mim, nem eu neles. Simplesmente eles existem, neles próprios. Não em mim, que já não sou.

Eles se parecem, mas não são. Reencontram-se, mas se perdem. Voltam hoje, como se ontem fora e nada representam, nem a própria vida, em si. Que não é deles.

Fortuitamente, vão e não vão. Saem e não saem. Existem, repetidamente, sem existirem. Por isso, calam para sempre. Num silencio sepulcral. Eternamente, parece.

Sofrem por eles, como se sofrer pelo que não existe, pudesse se concretizar.

A dor não pode existir, sem ninguém a recebê-la, pois não seria dor, mas uma abstração. Sequer, num voo silencioso. Impensadamente fazendo por si só.  Não existem no vácuo. Não se transformam em ecos. Os sons são para dentro, não para fora.  Os ruídos são sussurros inferiores e interiores.

Bastam-se a si meamos.

Aprofundam-se no ser, insensivelmente transformados no sensível abstrato. Como sempre, sem fim. E sem começo. O que se torna, repetidamente, indecifrável.

Implorando ao Ser supremo para ser de novo, numa repetição de criação impossível.

Uma exortação terrificante, sem pé, sem cabeça, sem membros e o que é pior: sem sentido, pois nem dentro e nem fora da matéria ou do espírito. No ar, como se pudesse se sustentar na atmosfera, sem ser.

A espécie infecunda, retorna ao nada, de onde veio.

Quebra assim, o processo existencial, fecundando sem dar origem, pondo fim, sem ter tido começo.

 (*) Advogado

 

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