Publicado em 04/12/2017 15:52:26

Calote tropical em câmera lenta

Rodrigo Botero Montoya (*)

Enquanto um golpe de Estado no Zimbábue retirava do cargo o ditador Robert Mugabe, seu colega caribenho Nicolás Maduro dava início ao calote da dívida soberana da Venezuela. Ao convocar a reestruturação da dívida externa, Maduro estava apresentando como uma decisão de política econômica algo que havia sido imposto pela força dos fatos. Na verdade, o governo não possuía os fundos para continuar cumprindo com suas obrigações financeiras.

A perspectiva de calote venezuelano não pegou a comunidade financeira internacional de surpresa. Desde há muito tempo, a dúvida entre os analistas já não era se a Venezuela declararia a suspensão do pagamento de sua dívida externa, mas quando. O surpreendente é que o governo esteve disposto a continuar pagando aos credores externos, enquanto restringia de maneira drástica a disponibilidade de divisas necessárias para o funcionamento do aparato produtivo e o bem-estar da população. A redução de 85% no nível das importações afetou o fornecimento de alimentos, medicamentos, matérias-primas, insumos e reposição para a indústria.

Embora o governo se sinta fortalecido pela divisão da oposição, a capacidade de negociação no exterior está condicionada por sua debilidade financeira. A atividade econômica continua em contração, o ritmo inflacionário se acelera, a moeda se desvaloriza, e o desabastecimento se acentua.

Reestruturar a dívida soberana de um país, cujos títulos foram emitidos sob as leis do Estado de Nova York, é um processo complexo e caro, que não se presta a ser administrado com pose de autoridade. Os negociadores pelo lado do governo devedor devem possuir ampla experiência financeira, talento jurídico e familiaridade com o idioma inglês. Estas são perícias bastante escassas entre os funcionários do regime bolivariano. Isso é indicado pela tentativa de dar um tratamento diferenciado à dívida soberana e à da PDVSA.

Estão equivocados os dirigentes venezuelanos se pensam que, ao negociar com os detentores de bônus, vão enfrentar associações de viúvas ou ordens religiosas, fáceis de intimidar. Os títulos da dívida venezuelana deixaram de ser uma alternativa de investimento para os investidores institucionais devido ao alto risco país e às probabilidades de insolvência governamental.

Aqueles que estiveram dispostos a comprar, com enormes descontos, estes instrumentos de dívida, são os fundos de hedge. Estas entidades, que em nada se parecem a organizações filantrópicas, estão dispostas a assumir altos riscos em busca de grandes lucros. Os diretores dos fundos de hedge, e seus advogados, têm capacidade de criar dificuldades judiciais de distinta ordem aos governos inadimplentes, para obrigá-los a chegar a um acordo satisfatório com seus credores.

O regime de Nicolás Maduro parte de uma posição de fragilidade. Inicia a negociação com os credores internacionais desprovido de legitimidade democrática e com a responsabilidade por ter causado uma deterioração econômica e social sem precedentes.

 

(*) Economista

 

 

 



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