Atualizado em 01/12/2017 10:13:18

Trump, comandante da guerra


contra a mídia profissional

Max Boot (*)

O presidente Donald Trump está certo: há epidemia de fake news nos EUA. Mas ela está sendo perpetrada não por seus opositores, mas por ele e seus apoiadores.

Isso ficou evidente quando o ‘Washington Post’ publicou u relato sobre como um trumpista chamado James O’Keefe, chefe do enganoso Project Veritas, tentou ludibriar seus repórteres, enviando-lhes uma mulher que alegava ter ficado grávida do candidato republicano ao Senado pelo Alabama Roy Moore e abortado em seguida, quando era adolescente. A intenção de O’Keefe era expor o ‘Post’ ao ridículo se o jornal publicasse a história, e consequentemente levando ao descrédito seu furo de reportagem sobre a suposta perseguição a meninas menores de idade pelo senador Moore. Mas o ‘Post’ não caiu na armadilha, mostrando rigor em sua apuração.

O’Keefe é apenas uma parte pequena da indústria das fake news, que inclui publicações como ‘Infowars’, ‘Breitbart’ e Fox News. Eles divulgam teorias da conspiração malucas, tais como a afirmação de que a invasão do Comitê Nacional do Partido Democrata por hackers não foi feita por russos, como concluiu a comunidade de inteligência, mas sim por funcionário do comitê chamado Seth Rich, que foi convenientemente assassinado — e portanto não pôde limpar seu nome. Alguns seguidores de Trump foram mais longe, a ponto de acusar a candidata democrata Hillary Clinton de liderar rede satânica de abuso sexual de crianças dentro de uma pizzaria —alegação inventada que levou um homem da Carolina do Norte a aparecer na referida pizzaria com fuzil deveras real.

O próprio Trump contribui para sua máquina de papo furado, inventando afirmações tresloucadas sobre como ele supostamente foi grampeado pelo ex-presidente Barack Obama ou sobre como Hillary Clinton supostamente entregou de mão beijada o urânio americano à Rússia. Nenhuma das duas denúncias é remotamente verdadeira, mas isto não impede o presidente americano de disseminá-las.

Trump, por sua vez, retribui os difamadores que o seguem retuitando positivamente o que escrevem a seus 43,5 milhões de seguidores. No sábado, ele agradeceu a um site chamado ‘MagaPill’, que é parada obrigatória para fomentadores de teorias da conspiração, como ‘bandeira falsa do terrorismo’, ‘roubo de órgãos’ e ‘máquinas de terremoto’. Como notou o site de notícias ‘ThinkProgress’, poucas horas antes de ser endossada por Trump, a MagaPill postou vídeo de Liz Crokin, figura opaca mais conhecida por divulgar a conspiração do Pizzagate. No vídeo, Crokin afirma que existe gravação sexual de Hillary Clinton com uma jovem menor de idade no laptop de Anthony Weiner, o ex-congressista por Nova York, acusado de vários escândalos sexuais.

Na última quarta-feira, Trump desceu a nível ainda mais baixo após retuitar vídeos de uma líder fascista britânica, mostrando supostas atrocidades cometidas por muçulmanos. Todos os vídeos são odiosos e pelo menos um deles é nítido embuste: o suposto imigrante muçulmano espancando um jovem holandês de muletas não é nem imigrante nem muçulmano. Naturalmente, Trump não se preocupou em fazer pelo menos checagem básica de dados, antes de divulgar esta odiosa propaganda antimuçulmana. E mais, Trump displicentemente insinuou que o âncora da TV Joe Scarborough pode ser culpado de assassinato porque há 16 anos, quando ainda estava no Congresso, uma mulher morreu em seu gabinete de causas naturais.

A descarada investida de Trump contra a verdade naturalmente vem acompanhada de seu ataque contra a mídia profissional, que se esforça o máximo possível para dizer a verdade. Trump classificou a imprensa livre como “inimiga do povo americano”, e tem lançado ataques tanto contra jornalistas individualmente quanto contra organizações de imprensa, tais como o “decadente ‘New York Times’” e o “‘Washington Post’ amazônico”. Em 25 de novembro passado, arremeteu contra a CNN, cuja cobertura internacional ele supostamente acompanhou em sua viagem à Ásia: “@FoxNews é bem MAIS importante nos EUA do que a CNN, mas fora dos EUA, CNN International ainda é a maior fonte de (Fake) news, e eles representam nossa nação para o mundo de forma pobre. O mundo externo não vê a verdade por meio deles!”

Trump está rapidamente desconstruindo o papel tradicional dos EUA como campeão da liberdade de expressão e imprensa livre no mundo. Ele soa de modo muito parecido com o de um autoritário, mesmo que não tenha o poder de um, e autoritários de verdade são reverenciados por suas palavras.

Poucas horas antes do tuíte de Trump, o presidente russo, Vladimir Putin, havia determinado que alguns veículos americanos de mídia, inclusive provavelmente a CNN International, teriam que passar a se registrar como agentes estrangeiros. A medida era retaliação à decisão do Departamento de Justiça de forçar o RT, órgão de propaganda do Kremlin, a se registrar como agente estrangeiro nos EUA. Como outros déspotas, Putin é ávido em apagar a distinção entre mídia independente e estatal e entre verdade objetiva e a versão oficial do partido — e Trump está ajudando o presidente russo a alcançar essa meta.

O fato de termos que nos preocupar se o presidente está desviando sua autoridade para retaliar contra organizações de mídia que ele detesta revela o nível terrível da situação em que estamos. Nunca tivemos um presidente tão hostil à Primeira Emenda Constitucional.

Para sermos justos, os ataques de Trump, na maior parte das vezes, representaram um tiro no pé, estimulando o aumento das assinaturas do New York Times, Washington Post e outros alvos de sua ira. Mas mesmo que Trump fracasse em fazer as organizações de mídia pagarem o preço por seu jornalismo independente, ele vem tentando tirar a legitimidade do seu trabalho e minando qualquer chance de que democratas e republicanos sejam capazes novamente de concordar em relação a um conjunto comum de fatos. No mundo de Trump, a verdade não existe — ou melhor, a verdade é o que quer o líder supremo. Isto é um panorama perigoso e desestabilizador do futuro da democracia americana.

 

(*) Editorialista da revista ‘Foreign Policy’



Deixe um comentário


Criar Conta WALGOM



Logar