Atualizado em 30/11/2017 12:14:48

Corrupção e subversão

Paulo Lins e Silva (*)

Vivenciei essas expressões acima desde os bancos da Faculdade Nacional de Direito, onde fui secretário-geral do Caco, na gestão histórica de 1963/4. Enquanto professores eram presos, éramos aconselhados a comparecer apenas às provas. Respondemos a diversos inquéritos policiais militares e processos administrativos dentro da faculdade. Seríamos “subversivos” e “comunistas”, em nossos 18/22 anos de idade.

Recordo-me de minha solidariedade a um amigo, Carlos, cujo pai fora preso pelos militares. O amigo agradeceu e ressalvou, com orgulho, que seu pai fora preso por “corrupção”, e não “subversão”. Na época, era melhor ser corrupto do que ser de esquerda. Nos relacionamentos sociais, nos indagavam: “Você é lacerdista? Comunista?” Não tínhamos alternativa moderada de escolha política. Os dois extremos falavam mais alto. E a opção política era mais grave que a mancha da corrupção.

Sempre ouvimos que a corrupção era um mote em nosso país, mas nunca divulgada como nos dias atuais. Daí estarmos ouvindo as alternativas de regresso ou retrocesso, de que o ideal seria para nos salvar, momentaneamente, o retorno dos militares, que teriam ajudado o país, nos livrando da ameaça “comunista” e banindo a “corrupção” dos anos 60 até 1985? Será? Na minha memória — que não é curta e vivi tais épocas — não tenho boas recordações. A corrupção existia, mas não era divulgada, por proteção aos líderes de antanho. As falências se multiplicaram, a inflação era de 10% ao mês em 1985, o ensino público em decadência e a cultura da “esperteza” se sobressaía até no esporte. Antes do golpe e em fase posterior tivemos Jânio, com sua vassourinha, e depois Collor, com a caça aos marajás, que fizeram crer que venceriam a corrupção como salvadores da pátria. Mas, como disse o belo artigo de Elder Dias, a corrupção sentou praça desde a comitiva de Pedro Álvares Cabral e gostou de nossa terra.

Quem se lembra da compra e venda da Light; da Petrobras de Shigeaki Ueki, que hoje reside distante do país; da construção das usinas de Angra? — tudo isso transcrito em artigo por Juremir Machado da Silva. Outro historiador, Carlos Fico, aborda, em “Como eles agiam”, a suposta “crise moral” que fora o mote dos militares. Conta que entre 1968 e 1973, auge da ditadura, a Comissão Geral de Investigação (CGI) analisou 1.153 processos de corrupção. Aprovou 41 confiscos de um total de 58 pedidos. Entre os investigados ou condenados, mais de 41% dos atingidos eram políticos, e aproximadamente 36% eram funcionários públicos. Num único ano, em 1973, chegaram ao sistema da CGI cerca de 400 denúncias. Seria o caso de dizer “nunca se roubou tanto no país quanto em 1973”. Enquanto isso, o nosso alto comando militar, quando confrontado com a roubalheira, exclamava: “Estamos investigando”. Tivemos no governo Geisel o “Japonesinho da Petrobras” e hoje o “Japonês da PF”.

No próximo ano teremos pela arma do voto que escolher políticos ou técnicos nunca envolvidos nesses públicos imbróglios. É a oportunidade de melhorar o futuro do Brasil, pois hoje, mesmo com a corrupção em fase punitiva, ainda temos uma democracia com um pluripartidarismo mal ou bem se entendendo.

 

(*) Advogado

 



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