Atualizado em 27/11/2017 12:45:30

Obra é aperitivo digno sobre a


gênese da 'Nona' de Beethoven

Irineu Franco Perpetuo (*)

Para se familiarizar com uma grande obra, é preciso um grande livro? Não necessariamente.

'A Nona Sinfonia: A Obra-Prima de Beethoven e o Mundo na Época de sua Criação', de Harvey Sachs, não realiza voos intelectuais ou estilísticos de envergadura e está muito longe de esgotar o assunto, mas funciona como introdução à partitura.

Com 71 anos, o norte-americano Sachs é experimentado escritor de livros de música, incluindo a coautoria das autobiografias do tenor Plácido Domingo e do regente Georg Solti. O volume sobre a 'Nona' é de 2010.

Embora seja ligado a um dos mais aclamados conservatórios dos EUA, o Curtis Institute, da Filadélfia, sua escrita busca ser acessível ao público não especializado, sem abusar de terminologia técnica, incluindo eventuais anedotas e se permitindo, até, tiradas antiacadêmicas.

Das quatro partes do livro, a mais original é a segunda, na qual Sachs procura mapear o clima artístico de 1824, o ano da estreia da sinfonia.

O foco são alguns dos principais escritores da Europa pós-napoleônica, como Lorde Byron e Púchkin, cujas criações não estão necessariamente relacionadas de forma direta à obra de Beethoven, mas ajudam a entender o ambiente intelectual e político em que foi gerada.

Além de fornecer um apanhado didático da gênese da 'Nona' e da biografia de seu criador, Sachs se propõe também a analisar a recepção e a influência da sinfonia.

Um recorte se fazia necessário, mas o leitor termina a obra se perguntando se o adotado pelo autor -limitar-se a compositores nascidos antes da estreia da sinfonia, em 7 de maio de 1824- foi o mais satisfatório, já que deixa de lado os óbvios ecos da 'Nona' na produção de músicos como Mahler e Bruckner.

Ignora ainda um dos casos mais flagrantes de 'angústia da influência' da história da música: Johannes Brahms (1833-1897), cuja primeira sinfonia foi alcunhada de 'Décima de Beethoven'.

Mas o verdadeiro calcanhar de aquiles do livro reside na parte três, uma descrição da 'Nona' que oscila entre o risco de soar hermética para o 'leigo' e redundante para o especializado.

Nesse aspecto, o capítulo dedicado à obra em 'Beethoven: Angústia e Triunfo', de Jan Swafford, lançado neste ano no Brasil, é bem mais objetivo e satisfatório.

Ainda assim, quem não estiver a fim de encarar o catatau de mais de mil páginas de Swafford encontrará em Sachs, se não um substituto à altura, um aperitivo digno. 

(*) Jornalista



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