Atualizado em 25/11/2017 12:19:49

Berthe Morisot e a superação do estilo

Willian Silveira

A primeira vez que me deparei com o nome de Caroline Champetier foi ao subirem os créditos de Homens e Deuses. Saber de antemão que a direção de um dos melhores filmes de 2010 – se não o melhor – era assinada por Xavier Beauvois (O Pequeno Tenente, 2005) não bastava. Era preciso descobrir quem colaborara para construir uma experiência estética tão próxima, inclusive em forma, à ascese dos protagonistas, um grupo de monges trapistas perseguidos por fundamentalistas religiosos. Champetier era a desconhecida por trás da primorosa fotografia composta por alto contraste e movimentos de câmera litúrgicos.

Guardei o seu nome. Ele reaparecia, dois anos mais tarde, na extravagante e polêmica crítica social proposta por Holy Motors, de Leos Carax – com quem havia trabalhado em um episódio de Tokyo! (2008). Ainda no mesmo ano, retrataria Hannah Arendt em meio a sépia previsível e excessivamente plastificado na cinebiografia de Margarethe von Trotta. Ao vê-la orbitar por trabalhos competentes e de expressão, a televisão francesa não hesitou em chamá-la para a tela. A estreia de Champetier na direção se deu com Berthe Morisot, ao retratar a vida da pintora francesa. Lançado como telefilme em 2012, o longa está agora em exibição na plataforma nacional do MUBI, pelos próximos dias.

Filmar para a televisão passa inevitavelmente por enfrentar o seu formato e aceitar imposições. Neste sentido, é uma decisão pouco compreensível a que chama atenção. Ao contrário do que se esperaria, o roteiro não constrói a personagem a partir de pesquisas e de fontes diretas, mas opta por um caminho mais fácil, adaptando de maneira seletiva o livro Manet: un rebelle en redingote, de Beth Brombert. Não é novidade que a relação entre Manet e Morisot era de amizade e admiração. No entanto, para além da certeza de que ela foi modelo em várias das telas do pintor, o envolvimento de ambos e a controversa passagem em que Manet teria finalizado a obra que deu notoriedade à artista não passam de suspeitas afeitas à especulação. Mesmo apostando na proximidade de ambos, convenhamos que apoiar a construção da protagonista de um filme sob o personagem secundário da biografia de Edouard Manet não parece interessante. Os reflexos desta concepção equivocada estarão visível durante todo o longa

Berthe Morisot inicia a partir da relação entre Berthe (Marine Delterme) e Edma (Alice Butaud), irmãs que encontraram na pintura uma forma de romper o destino das mulheres do século XIX. No ateliê da família, exerciam uma liberdade que as permitia cogitar um futuro diferente. A aproximação de Manet, por sua vez, retratado como charmoso e elegante na figura de Malik Zidi, desperta nas jovens um sentimento dúbio, ora movidas pela vaidade do reconhecimento do pintor, ora tomado na defensiva, como ameaça do retrocesso que elas querem superar: a figura de esposa. Ao acrescentar camadas dramáticas, como a indisposição da mãe diante da trajetória artística das filhas e o panorama conturbado da guerra franco-prussiana, o projeto televisivo dispersa a tensão e acentua o tom monocórdio do filme. Levado a encarar mais desdobramentos do que poderia dar conta, o enredo sofre com a falta de originalidade diante de um tema recorrente como a busca de personagens femininos por espaço na sociedade.

A fragilidade dramática de Berthe Morisot acaba por realçar o competente trabalho de figurino e o cenário de época, bem como os lampejos de um direção que, quando tem espaço, se revela engenhosa. Afinal, a boa cena inicial, durante a tumultuosa exibição de Olympia, de Manet, não foi um lapso, como alguns poderiam supor. Tal inventividade ressurge timidamente no terceiro ato do filme. Ali, a direção de Champetier demonstra como é possível superar um roteiro sem inspiração ao remeter, assim como em Homens e Deuses, a forma do filme à composição da pintura impressionista, justificando, pelo menos em um par de cenas, o fato de ter guardado o seu nome.

 

(*) Crítico de cinema 



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