Atualizado em 24/11/2017 11:35:36

Mugabe já vai tarde

Rasheed Abou-Alsamh (*)

O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, finalmente renunciou ao cargo, depois de ser posto em prisão domiciliar na semana passada pelos militares de seu próprio governo. E foi tarde. No poder desde 1980, ele era o chefe de Estado mais velho do mundo. Também foi um presidente tão corrupto e inepto que conseguiu afundar um país que já foi um dos mais ricos da África. Hoje, o Zimbábue tem a maior inflação do mundo e um PIB mais de cem vezes menor do que a vizinha África do Sul.

Mas não foi sempre assim. Ele e outros idosos ao seu redor lutaram na guerra de independência, nos anos 1970, contra o governo de minoria branca deixado para trás na colônia da Rodésia quando os britânicos foram embora, em 1965. O país sempre foi rico em agricultura e, até o fim dos anos 1980, era exportador de alimentos. Com sua independência, em 1980, o mundo inteiro torcia para que o novo país fosse bem-sucedido. Mugabe foi celebrado naquela década como o grande líder de uma nação tentando sair do colonialismo. Por isso, todos tinham boa vontade com ele.

Foi no início do novo milênio que Mugabe e seus correligionários mostraram suas verdadeiras intenções de saquear o país, tirando fazendas produtivas das mãos de donos brancos, alegando agir a favor dos negros. Isso acabou com a produção agrícola do país, mergulhando-o num buraco do qual não saiu até agora. Com o desemprego beirando os 95%, o país depende de remessas mandadas por seus cidadãos que trabalham na África do Sul e dos investimentos dos chineses.

Com inflação chegando a 4.500% em 2007, o governo decidiu parar de emitir tanta moeda, já que não tinha quase nenhum valor. Pessoas se queixavam de que precisavam carregar malas grandes de dinheiro para comprar eletrodomésticos, tão desvalorizada era a moeda nacional. O dólar zimbabuense foi praticamente retirado de circulação, e o dólar americano, o rand sul-africano e a libra esterlina começaram a ser usados.

O outro lado escuro do governo Mugabe era a repressão política. O líder da oposição Morgan Tsvangirai foi primeiro-ministro de 2009 até 2013. Ele participou das eleições presidenciais em 2008, ganhando o primeiro turno, mas desistiu depois de uma campanha de violência e intimidação dos apoiadores de Mugabe contra Tsvangirai e outros opositores.

Tsvangirai começou como líder sindical, convocando a primeira greve geral da historia do país, em 1997, com adesão de 55%. Ele fundou o Movimento para Mudança Democrática (MDC) em 1999, obtendo 57 cadeiras em eleições legislativas em 2000. De 1989 até 2007, foi detido várias vezes pelo governo Mugabe. Ele também poderia ter ganho as duas últimas eleições se Mugabe não tivesse interferido nos resultados.

O editor da BBC para a África disse esta semana, da capital Harare, que as pessoas estavam dançando nas ruas, emocionadas com a derrubada do ditador. “Antes, jornalistas tinham que entrar no país às escondidas, e as pessoas que entrevistávamos sempre pediam para não mostrar seus rostos, tamanho o medo que tinham de retaliações do governo,” disse ele. “Hoje, as pessoas estão me procurando, querendo mostrar seus rostos na televisão.”

O problema agora que Mugabe já se foi é que quem vem depois pode ser tão podre quanto ele. O ex-vice de Mugabe, Emmerson Mnangagwa, que foi demitido dia 6 de novembro, já voltou do exílio e vai ser empossado como presidente interino. Mnangagwa também é um ex-guerrilheiro que, como Mugabe, lutou pela independência do país e foi torturado brutalmente pelos ingleses. Mas já tem 75 anos e é visto como parte da velha guarda, corrupto e cruel.

Mnangagwa foi chefe da segurança interna nos anos 1980, quando houve uma campanha brutal contra Joshua Nkomo, um rival de Mugabe. Milhares de civis foram mortos nessa campanha, mas Mnangagwa sempre negou qualquer participação nos massacres.

O Zimbábue precisa de eleições realmente democráticas e livres em 2018. Também necessita de reformas econômicas para atrair novamente investimentos e ajuda do Ocidente. Os EUA e a União Europeia não podem ficar de fora. O povo precisa de empregos e salários dignos. O país pode e deve voltar a ser um exportador de alimentos. Com isso, vai gerar novos empregos no campo e encher os pratos dos agricultores.

Devemos dar graças a Deus que a derrubada de Mugabe foi sem derramamento de sangue. A maioria dos zimbabuenses acreditava que ele só ia sair do poder quando morresse. “Nos somos um povo pacífico!”, exclamou uma mulher à BBC, celebrando a mudança de poder nas ruas de Harare.

Tomara que o futuro do país seja mais produtivo e equilibrado. Não precisamos de mais um ditador, cujos filhos vivem como playboys, comprando Lamborghinis e relógios de luxo. O Zimbábue merece algo muito melhor do que isso.

 

(*) Jornalista

 



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