Publicado em 20/11/2017 10:09:52

Sinal dos tempos, o Leonardo de US$ 450 milhões

Elio Gaspari (*)

O quadro ‘Salvator Mundi’, de Leonardo da Vinci, foi arrematado por US$ 450 milhões, batendo o recorde de US$ 180 milhões de um Picasso. Foi também sinal dos tempos.

Entenda-se que se uma pessoa achou que o quadro valia US$ 450 milhões, para ela o preço foi justo. Nenhum museu entrou na disputa e nenhum especialista endossou o que parece ter sido maluquice. Em 2005, com sua atribuição discutida, o quadro valeu US$ 10 mil. Em 2012, já atribuído a Leonardo, ele foi vendido por US$ 127 milhões a um bilionário russo. De lá para cá, começou a ser conhecido como ‘o último Leonardo’ que chegava ao mercado, ou ainda a ‘Mona Lisa masculina’.

O ‘Salvator Mundi’ não é uma Mona Lisa porque muito do que Leonardo pintou em 1500 foi-se embora em sucessivas restaurações, numa das quais puseram-lhe um bigode, raspado depois. Nos US$ 450 milhões pagos pelo quadro, houve muito marketing e, acima de tudo, o reflexo do excesso de dinheiro nas mãos de quem tem muito.

No início dos anos 30, o banqueiro americano Andrew Mellon comprou 21 quadros numa liquidação de obras-primas vendidas pelo museu russo Hermitage e pagou US$ 1,1 milhão (equivalente a US$ 1,8 bilhão em dinheiro de hoje). Levou a ‘Alba Madonna’ e o ‘São Jorge’ de Rafael, mais uma ‘Anunciação’ de Jan Van Eyck, quatro Rembrandts e um Botticelli. Em 1967, sua filha Ailsa comprou por US$ 5 milhões (US$ 40 milhões de hoje) o magnífico retrato de Ginevra di Benci, o único Leonardo que está fora da Europa. (Os Mellons doaram tudo ao povo americano.)

O conde Francisco Matarazzo ensinava que "mercadoria não tem preço de mercado, terá preço se tiver quem a compre". Se isso valia para banha e biscoitos, estimar o valor de uma obra de arte é coisa muito mais difícil. Ainda assim, houve algo de extravagância nos US$ 450 milhões do Leonardo.

Para quem quiser, há reflexão do grande crítico Robert Hughes sobre a arte e dinheiro, feita em 1984. Chama-se ‘Art and Money’ e está na rede. Nela, Hughes previu o colapso do mercado de arte contemporânea. Não deu outra.

 

(*) Jornalista



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