Publicado em 18/11/2017 13:46:04

Diário de Drummond expõe o magma


familiar que lhe serviu de inspiração

Mario Sergio Conti (*)

O tempo não abateu sua mão pesada sobre os diários de Carlos Drummond de Andrade. Se não alcança as alturas de sua poesia maior, ‘Uma Forma de Saudade’ (Companhia das Letras, 191 páginas) suplanta amiúde a sua melhor prosa. É um livro retraído, árduo, revelador.

É também livro inédito. Drummond manteve por mais de 30 anos um diário, no qual narrava "um pouco tolamente", conforme disse, o que lhe acontecia. Não analisava nem tirava conclusões do que punha no papel. Um belo dia rasgou os muitos cadernos em que fez as anotações.

Mas preservou dois conjuntos. Num, guardou as entradas a respeito de episódios políticos e literários. Elas deram origem a ‘O Observador do Escritório’, que publicou em 1985. O livro é complacente quando fala do toma-lá-dá-cá na vida cultural, e abundante em platitudes sobre a política.

O poeta pôs o segundo maço de recortes do diário num envelope e o entregou a Maria Julieta, sua filha. Ela morreu em 1987, de câncer. Ele escreveu: "Assim terminou a vida da pessoa que mais amei nesse mundo". E morreu 12 dias depois, do coração. O diário foi esquecido.

Agora, no seu 115º aniversário de nascimento, e no 30º de morte, saem os restos do diário. Drummond os via como um livro de verdade, ainda que destinado apenas aos netos, e só no caso deles se interessarem pelo "rio de sangue que flui através de uma geração para outra", a família.

‘Uma Forma de Saudade’ não se restringe à história do clã ou à biografia de Drummond. A família é um dos núcleos da sua poesia, que trata da identidade pessoal, os laços amorosos e da existência social. Uma linguagem de alta voltagem tensiona a constelação de temas.

As páginas de diário mostram o magma familiar que lhe marcou a carne e serviu de matéria-prima para a poesia. Estão nela o pai Carlos de Paula, a mãe Julieta Augusta, as irmãs Rosa e Maria, os irmãos Flaviano, Altivo e José. É matéria bem bruta. De extração luso-escocesa, esses mineiros são gente austera, arredia, irritadiça, triste. De ferro.

E também de ferrugem porque Drummond os capta na agonia. O livro é sequência insalubre de doentes terminais que estertoram sem consolação. Ele recebe um telefonema no seu apartamento, em Copacabana. É avisado que fulano se apaga como um toco de vela, ou então que cicrana se suicidou. Pega o avião.

Em Minas, constata: "a doença e a morte eram suas únicas companheiras". E: "o que estava ali, roído de vermes e sujo de terra, pouco tinha a ver com minha mãe". E: "o que me resta do passado são fragmentos obscuros e incoerentes". E: "fui e voltei com a alma vazia". E: "tudo acabou e entretanto essas imagens perduram, vivem em mim".

São imagens mórbidas. Mas, livres de melodrama e misticismo, elas compartilham experiências dificilmente dizíveis, de tão dolorosas. Registram remorso inapelável diante da vida relembrada, das coisas nunca ditas a quem se amou. Ajudam a enfrentar o destino comum da morte.

O desabafo abafado de ‘Uma Forma de Saudade’ não se esgota em Drummond. Ao permitir que Manuel Bandeira tome a palavra, ele faz com que o diário desça da aridez das montanhas de Minas e se empanturre de astúcia pernambucana.

A estarrecedora agonia do autor de ‘Libertinagem’ também é acompanhada passo a passo. Lourdes, sua última mulher, é uma ave de rapina que o atormenta até a tumba. Com Bandeira, porém, a conversa é outra, o lúgubre fica lúbrico.

Preso a uma cama de hospital, ele diz a Drummond:

"Sempre evitei me complicar mantendo casos com mulheres de temperamento difícil. Acho que esse negócio de trepar deveria ser uma coisa simples; duas pessoas se encontram e, como se desejam, vão dormir juntas, sem necessidade de romance. Justamente para evitar casos complicados é que tenho deixado de comer muita mulher boa nesse mundo".

(*) Jornalista



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