Atualizado em 30/05/2017 11:12:39

No exílio, Paulo Freire tinha


saudade do suco de pitanga 

Joaquim Falcão (*)

Em 1991, Paulo Freire (1921-1997) era secretário de Educação de Luiza Erundina, em São Paulo. Um dia, entro em seu gabinete e o encontro sozinho. Se não chegava a chorar, muito se lamentava.

– O que houve, Paulo? –perguntei eu.

– Imagine, Joaquim. Agora até a direita está copiando meu método! –respondeu ele, contrariado.

– Mas Paulo, o reconhecimento dos contrários, dos adversários mostra o sucesso, não o fracasso de seu método –repliquei.

– Não, não! –quase me repreendeu. – Meu método de alfabetização não se separa dos valores e objetivos que defendo. É método de libertação dos trabalhadores brasileiros. E não de legitimação da opressão da direita!

O método de Paulo foi descrito pela primeira vez no livro "Pedagogia do Oprimido". Livro que acredito ter sido, e continua a ser, um dos mais vendidos de autor brasileiro nos Estados Unidos. Sobretudo no circuito de universidades e educadores. Talvez até mais vendido lá do que aqui.

"Pedagogia do Oprimido" foi sempre meu objeto de desejo. É que coleciono as primeiras edições dos livros que nos esclarecem sobre nós mesmos. Livros de ciências sociais, de interpretações do Brasil, como "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, "Os Sertões", de Euclydes da Cunha, "Macunaíma", de Mário de Andrade, "Um Estadista do Império", de Joaquim Nabuco, "Casa-Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, "Os Donos do Poder", de Raymundo Faoro, e outros.

Não consegui ainda a primeira edição de "Pedagogia do Oprimido". Mas, por intermédio de Moacir Gadotti, discípulo-mor de Paulo, obtive um raro fac-símile do manuscrito original do livro, com que Paulo presenteou um amigo, Jacques Chonchol, que muito o acolheu em 1968 e que o ajudou no amargo exílio no Chile.

Mais ainda. Consegui o fac-símile da carta com que Paulo presenteia Jacques e Maria Edy, sua mulher. É missiva preciosa. Nem sei se foi publicada. Talvez não tenha sido.

Trata-se de sofrido hino de amor ao Brasil. Nela, ao chorar por ter de deixar o país, Paulo Freire se consolava por levá-lo dentro de si. Dizia:

"Deixava o Recife, seus rios, suas pontes, suas ruas de nomes gostosos - Saudade - União - 7 pecados - rua das Creoulas, do Sol, da Aurora. Deixava o cheiro da terra e das gentes do trópico. Deixava os amigos, as vozes conhecidas. Deixava o Brasil. Trazia o Brasil".

Paulo foi um educador em quem as teses e antíteses se faziam sínteses. A conscientização da opressão, que o método provocava, levaria ao ideal de libertação, que o método estimulava.

Nessa carta, ele faz outra síntese: a síntese da saudade sofrida. Deixava fisicamente o Brasil, forçado pelo exílio. Mas o trazia psicologicamente alimentado pela memória viva.

Essa missiva, e todo o manuscrito, não foram batidos a máquina. Computador não havia. Foram escritos a caneta e a mão. É de notar que é letra bastante compreensível.

Comparando com outros manuscritos, como os de Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Ruy Barbosa, Ebert Chamoun e do saudoso Eduardo Portella, por exemplo, a caligrafia caracteriza-se por forma inteligível, quase desenhada.

Já se disse que falar é forma de pensar. Escrever é também pensar. Escrever claro é pensar claro. Essa carta claramente expressa um pensar sobre as saudades impostas. Mas que, não obstante, estão livres de opressão e dominação. Das quais não podemos nem devemos fugir.

Do Chile, Paulo foi ensinar em Harvard, nos Estados Unidos. Foi mobilizar na África. Viu o mundo. Foi para Genebra. Na década de 1970, lá nos encontramos. Tinha saudade do suco de pitanga do Recife. O que inexistia por lá. Consegui fazer vir do Brasil. Passou silente pela sisuda alfândega suíça.

Celebramos então, com suco de pitanga, a saudade que ele consigo levara, que expressara na carta e que continuava intacta na Secretaria de Educação, em São Paulo.

 (*) Advogado



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